Loja dos Sonhos











Eu, mulher dormente, na líquida noite
alargo a ramagem de meus cabelos verdes,
Sigo dentro deste cristal ondulante,
contida como o som nos sinos imóveis.

Surda é a transparência do mundo que ocupo,
onde vago, em vigilância do eterno,
livre do efêmero visível e tranqüila,
e embora incomunicável, em solidão feliz.
Eu, mulher dormente, de olhos fechados
onde vendo essas paredes fluidas que caminham
comigo mesma, na cristalina arquitetura:
muralha de sucessivos patamares à luz de nenhum sol.

Espelhos de quartzo verde em que me reconheço admirada,
de olhos abertos desde sempre, para sempre,
desenhando-me involuntária, buscando-me exata,
fingindo-me nesta caligrafia que não alcanço.

Ah? dos meus verdes cabelos sobem agora ramos de rosas,
alta coroa do retrato submerso, frágil e melancólica,
e já me esqueço do que vou sonhando. E nesse suspiro
e se as flores se desfolharem neste planeta de silêncio.

Cecília Meireles

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