'ORIGEM'

O TEMPO gerou meu sonho na mesma roda de alfareiro
que modelou Sirius e a Estrêla Polar.
A luz ainda não nasceu, e a forma ainda não está pronta:
mas a sorte do enigma já se sente respirar.
Não há norte nem sul: e só os ventos sem nome
giram com o nascimento — para o fazerem mais veloz.
E a música geral, que circula nas veias da sombra,
prepara o mistério alado da sua voz.
Meu sonho quer apenas o tamanho da minha alma,
— exato, luminoso e simples como um anel.
De tudo quanto existe, cinge sòmente o que não morre,
porque o céu que o inventou cantava sempre eternidade
rodando a sua argila fiel.

Cecília Meireles
in: 'Viagem' p.104


' E assim passamos a tarde'


E assim passamos a tarde
conversando coisas banais,
da superfície do mundo.

E estamos cheios de mistérios
que não comunicamos.
E assim morreremos, decerto.
E não dais por isso.


Julho, 1962


Cecília Meireles
In "Poesia Completa",
Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993



Se um pássaro cantar dentro da noite
extraviado,
pensa com ternura nessa vida aérea,
sem alfabeto nem calendário,
tão pura, tão pura,
entre flores e estrelas,
sem data de nascimento,
sem nítida família,
e sem noção da morte.
Como os meninos que as mães deixaram,
Abandonados
Longe, na calçada dos séculos,
à porta de um pai improvável
e que choraram sem socorro.


Cecilia Meireles
in"de Metal Rosicler"